A nova ordem mundial é um apaziguamento

Jairo Back

A nova ordem mundial é um apaziguamento pessoal. Me veio isso enquanto limpo o banheiro, sábado à tarde, o que não é depreciativo, as pessoas não ficam só a filosofar, e é sintomático da vida de hoje, a trabalhar e também a limpar o apartamento. Quem sabe de onde e de que modo brotam as ideias? Estas representam não só um desejo pessoal, mas também uma necessidade global. E é preciso referir à ordem mundial porque os comportamentos locais estão relacionados com o que acontece no mundo.

Estamos sob grande tensão, com mentes conturbadas no trabalho, no trânsito, no convívio social e familiar. Com essas tensões, ficam a reverberar e “fagulhar” energias que são desconhecidas por nós em na nossa mente. Se a pessoa não consegue se apaziguar, acaba irritada, conturbada, transtornada e até agressiva. Temos assim forte desarmonia, com discussões, disputas, agressões – às vezes ficamos quase que em guerra: no trânsito, contra os colegas, os familiares, os opinadores na internet, na política ou em outras contrariedades, o que causa desgastes e prejuízos não só a outros, mas sempre a nós mesmos, em primeiro, sem percebermos

Muitos já enlouqueceram, e são milhões, mundo afora; e centenas de milhões mais ainda vivem em estado doentio, de tensão, agressividade. Muitos pensam que essas são pessoas do mal, e as rechaçam com dureza e mesmo violência. Mas trata-se de pessoas atormentadas com energias psíquicas poderosas, que semelham as lavas de um vulcão que, sob muita pressão, chegam a explodir e levar tudo por diante.

O digladiar mútuo em sociedade ocorre comumente, para tentar conseguir ou mesmo exigir tudo que pensamos merecer, a exercitar para isso nossas forças. Mentes atormentadas acabam por agir com dureza e até com violência, e temos visto tendência política global nesse sentido, da radicalização de comportamentos. São pessoas assim, em sua maioria cidadãos normais, mas com atitudes destemperadas, que promovem e que aderem ao discurso fascista, ressurgindo. E não bastou nem mesmo o nazismo. Veja-se a que ponto chegamos.

Por isso, o apaziguamento pessoal é indispensável e desejável sob todos os aspectos, e justifica-se, em primeiro, pelo conforto psicológico da pessoa. Quem está apaziguado está harmonizado, reconciliado consigo, em condições de aguardar o que a vida poderá lhe trazer de bom. A amplidão das consequências positivas decorrentes também para a sociedade é enorme, devido também à melhoria dos relacionamentos. E no contexto atual é mais necessário ainda esse apaziguamento devido ao estresse, ansiedade e fragilidade permanentes frente ao mercado de trabalho, à vida contemporânea e ao que se vê em disputas políticas animalescas – com o perdão dos bichos. Mesmo que haja disputas, e independente dos resultados, elas precisam ser pacíficas e não truculentas.

Tal se pode ver em (nunca rápidas) leituras de psicanálise, há conteúdos psíquicos / psicológicos não suportáveis por nossa consciência porque são incompatíveis com nosso pensamento e com as exigências culturais – mas são desejos e sentimentos que mesmo assim ficaram gravados de modo profundo no psiquismo, sendo energias que ficam “enclausuradas”, recalcadas, negadas e, sobretudo, ignoradas - sendo por isso inconscientes, nunca acessíveis pela consciência.

E é justo pela pressão da busca por satisfação por parte dessas energias que não nos é possível evitar a força com que nos fustigam esses conteúdos “invisíveis” – são forças independentes de nós, do que pensamos. Essas repetidas “estocadas” inconscientes provocam a fixação de nossa mente, assim assolada, justamente entorno desses conteúdos, provocando o retorno da mente a isso que é negado, mas sem ela ser capaz de admitir esse conteúdo negado, sendo assim um processo de repetição interminável.

Essas energias instintivas têm grande poder, e por isso os grandes e permanentes esforços e desgastes da mente para negá-las são inglórios, apenas postergando o irromper dessas energias, o que será traumático. E, devido a essa tensão permanente da pessoa, redunda em ações bruscas, inesperadas, indesejadas, violentas, seja contra os outros ou contra a própria pessoa, chegando assim a ser muito destrutivo até para um país.

Inconsciente, negação, fixação e repetição tratam-se de conhecimentos básicos, “corriqueiros” da psicanálise e da psicologia. E até um leigo com alguma leitura percebe à distância os extremados e repetitivos comportamentos resultantes desses “fenômenos”: resistência e oposição aos próprios sentimentos e repetitivo comportamento tumultuoso, perturbado, destrutivo. Entretanto, ainda hoje, fala-se de questões psicológicas apenas à boca pequena ou em deboches aos doentinhos.

Para nosso apaziguamento pessoal dessas energias inconscientes, da fixação, da negação, e da repetição trata-se de “despressionar” a mente dessas forças por meio da elaboração dos conteúdos psicológicos inconscientes. Para isso, em primeiro, é preciso conhecer o inconsciente – conforme Freud, em O inconsciente, e para o que foi desenvolvida a psicanálise –, e para isso é preciso a “transposição” ou “tradução” do inconsciente para o consciente, para que, então, se possa melhor elaborar esses conteúdos: compreender o que ocorre, equacionar e satisfazê-los de algum modo; e, assim, acalmar essas insatisfações instintivas tumultuosos.

Para Freud e para Lacan, esse conhecimento do inconsciente é possível pela fala, pois algumas palavras que dizemos são carregadas de importantes significados pessoais, inconscientes, que dizem do que ficou negado. São palavras repetidas, negações, coisas que evitamos dizer, e muito mais. Por isso, é preciso comprometer-se a falar, verbalizar com sinceridade sobre seus problemas, e de preferência a psicólogo ou psicanalista. Com isso se pode desvendar, arranjar, acomodar esses conteúdos, para que a mente possa se contentar, sossegar, quietar, tranquilizar, apaziguar-se. Temos com isso também algo como uma leve “sedação”, ou indiferença muito necessária para a não reação em discussões e brigas despropositadas.

Para abrir-nos a essas realidades, precisamos a desmistificação do mundo psicológico, pela busca permanente de conhecer-nos e de aceitarmos o que somos, de nossos sentimentos, medos e inseguranças, por meio de acompanhamento psicológico ou de análise com psicanalista, e até de medicação, às vezes. Meditação e outras técnicas e filosofias orientais também são recomendadas.

É óbvio que isso é mais urgente para os mais problemáticos, tumultuosos, ansiosos, depressivos, adoecidos. Mas veja só: precisa ser também da população em geral, a maioria das pessoas, eis que são elas, em conjunto, que influenciam mais os rumos da sociedade. E, para todos, só pode contribuir, já que é difícil alguém não ter algo mal resolvido em sua vida.

É tempo de tomarmos conhecimento, de modo amplo, de o que somos, em nossa constituição psíquica, já que apenas sabemos como somos, em nossa organização cultural. Falta todos saberem que têm conteúdos psicológicos inconscientes e o que significa isso: que eles podem agir livres, tal qual não existissem, a nos atormentar; tal qual fantasmas, ou zumbis, a nos fustigar e a desestruturar nossas vidas.

Como melhorias, temos pessoas menos “reféns” de seus sentimentos e de ações indesejadas suas, incompreensíveis, violentas; e podemos ser mais voltados ao mais importante e perene na vida, podendo assim ser mais organizados, pacíficos e democráticos, em todas as esferas da vida. Quantos extremismos poderíamos assim evitar. Senão, o que é como lava em erupção cumpre seu destino, com toda sua força. E resta o choro, tardio.

Essas são opiniões de um economista filosofador autodidata apaixonado leitor de psicanálise e de psicologia. Tendo sido usado linguajar coloquial, os aspectos formais da psicanálise que possam ser mais bem tratados não atrapalham, pois o que importa é que busquemos mais tratar de modo amplo desses assuntos, em especial os leigos.

E veja-se que o filosofar, tão desprestigiado, nos traz coisas boas. Mas, é desconcertante a filosofia oriental dos indianos, que chegou a algo semelhante há milhares de anos! Como é possível tanta sabedoria e até poesia? Algo assim, do melhor já escrito:

Antes de exigir o que você quer do mundo,
é preciso livrar o mundo de você mesmo.

 

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