Os “haikus” de Antonio Fernando De Franceschi nos 30 anos de Sal

Dinarte Albuquerque Filho

Diante da prateleira, o olhar recai e se mantém em Sal (Companhia das Letras, reeditado em 2017), terceiro livro de Antonio Fernando De Franceschi, que completa 30 anos em 2019. O livro encerra uma espécie de trilogia, que, somados aos anteriores, estão “inscritos num processo de exigência expressiva”, como explica no texto publicado em Artes e Ofícios da Poesia (organizado por Augusto Massi em 1991).

O que me detém em Sal são os nove poemas reunidos na seção do livro chamada “Haikus”. Foram várias leituras ao longo do tempo, atraído pela exatidão da palavra e do sentido obtida por Franceschi, que, de forma geral, apresenta uma poesia de viés existencialista. Poderia escrever sobre o livro inteiro, sobre a musicalidade que dele ecoa (“preocupação com o tema vai de par em par com a procura do ritmo certo, do acento preciso, da melopeia enfim” in MAIS, 1991), mas a seção “Haiku” me encanta. Não lembro se a primeira leitura ocorreu antes ou depois da antologia Haikai (1991) da qual Franceschi é o organizador e o responsável pela “Introdução” do livro, quando aborda didaticamente o poema japonês e o trabalho desenvolvido por Elza Taeko Doi e Luiz Dantas; ou se é apenas a atração pelo poema japonês – dado a interpretações plurais.

Sal, que mereceu o Prêmio Cassiano Ricardo de poesia, é dividido em oito partes e a quarta sessão, “Haikus”, começa com o poema-título: “se o ralo verso/ tem halo/ é um universo”. Três versos que revelam a busca do poeta pela precisão e que, desde aquele instante, parece estar em harmonia com a amplitude sugerida; que explode sem ser bombástica. Parte-se do pressuposto que há o entendimento da força expressiva do haiku (como sinônimo de haikai), o tradicional poema japonês no qual “Os pensamentos mais sutis revelam-se nas condições mais materiais. E a mais alta poesia, nas circunstâncias mais pedestres e corriqueiras”, como explica o poeta Paulo Leminski em seu livreto sobre o poeta japonês Matsuô Bashô (1983, p. 88).

O crítico Moacir Amâncio já observou que Franceschi “supera o desafio da poetização do cotidiano mais banal, iluminando-o com significações múltiplas”. É o que se pode ver no poema “Língua do P.”, à página 83: “pedra/ pólen/ poeira:// é pura perda polir/ se não pulsa a poesia”. Depois da enumeração de três elementos naturais, os dois versos finais do poema utilizam-se da aliteração, não menos importante nas palavras iniciais. O ritmo que daí advém dá ao poema uma imponência descontraída, quase despretensiosa para nos dizer sobre o ofício do poeta. E ele, novamente, recorre aos elementos cotidianos para deslocar a atenção do leitor aos cuidados com o uso da palavra, remetendo-o, em algum grau, aos famosos versos do parnasiano Olavo Bilac e seu “Profissão de Fé”.

Em “Memento” (“hora sem véu/ aberta:/ céu dos cinco sentidos”), um momento de revelação. O começo de tudo, a primeiridade semiótica instalada no início de algo, quando tudo está disposto aos sentidos, pronto para ser revelado. Um continuum que conecta com os vivos e os mortos, nos trazendo, ou quem sabe nos levando, ao essencial do poema japonês, “como forma de aprimoramento do espírito pela prática de uma arte”, como ele mesmo escreveu em um artigo publicado em 2010. Da mesma forma que em “Persona” (“nada toldar-te/ a Face// (sequer lívida máscara)// se te despedes”), quando a despedida se dá em diferentes níveis de emoção: a morte como um simples desmascarar-se.

Nestas descobertas, existem as possibilidades, mesmo que “indecidíveis”, como propõe nos poemas (ou no poema) que inicia-se na página 93 e divide-se em três partes. Mas também há o estabelecimento do limite. Ou de um limite. Que ele evidencia em “Tensão”: “linha/ e ponto/ suspender/ no limite// e as palavras/ nas canções”. A precisão do autor parece atingir o ponto máximo: escrever e saber parar, deixar em suspenso o que deve ser dito, para que o leitor sinta-se à vontade para interpretar e entender, como diz outro poeta, Thiago de Mello, com o “coração da inteligência”. Ao dizer que as palavras se encontram e se ressignificam na canção, também nos dão a entender que a canção, por excelência – composição poética de grande elevação e qualidade literária superior –, eleva a palavra à categoria de arte, palpitação e som em um encontro estético com significados próprios, trabalhados com sensibilidade.

Sensibilidade que explode, então, em “Batismal”. Novamente, o poeta recorre ao princípio de tudo e ao fluxo decorrente da fonte luminosa. Tudo é luz, tudo é transcendente, inclusive e principalmente a origem das coisas e da vida propriamente dita. Energia que move o sujeito e que o situa no plano existencial, que ressoa além dos três versos, sem nada racional, sem um desfecho conclusivo. Afinal, diz o poeta, diante de si e de suas sensações, “alterno me quero igual/ me despedaça não ser plural” (“Solipsismo”).

Os poemas da seção não são propriamente haikus, embora nos levem a intuir uma sensação nova implícita nas entrelinhas; os versos ganharam títulos e não obedecem à forma dos 5/7/5 versos, conforme manda a tradição. Mas eles têm uma “maneira do haiku”, estão carregados do puramente poético em relação à natureza das coisas e dos homens, pois não chegam a ser emocionais, não são totalmente intelectuais e não têm ensinamentos morais – há, esclarecidamente, o processo de adaptação para o “fazer poético” ocidental. Provavelmente o filtro filosófico imbricado na poesia de Franceschi carrega em si a parábola do “punhado de sal” que nos oferece em um oceano de poesia (“se agitam logo/ não me saciam/ me afogo” em “Águas”), como prenunciado no primeiro poema do livro, “Sinbad”, em que se “entrega por inteiro” ao destino para o qual navega e, por vezes, afunda, “disposto a voltar do fundo/ com uma pérola entre os dentes”.

Ainda aceitam muitas decifrações, os haikus de Antonio De Franceschi; muitos podem ser melhores que os outros poemas do livro. E muitos e outros podem estimular concordâncias ou divergências entre o autor e o leitor.

 

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