Maiakóvski: poesia para resistir e amar

Dinarte Albuquerque Filho

“Afora
o teu olhar
nenhuma lâmina me atrai com seu brilho.”
(“Lílitchka! Em lugar de uma carta”)

Nestes dias de estupefação diante do desgoverno mundial, em particular o do brasileiro, a potência poética de Vladimir Maiakóvski, o revolucionário poeta russo e seus sonhos por um mundo mais humano, faz a alma sentir-se menos medíocre. Maiakóvski “era solitário, pois sofria um drama na própria alma”, de acordo com um de seus biógrafos, Aleksandr Mikhailov (2008, p. 117). Ainda assim, ele está entre aqueles que falaram por muitos desde que começou sua luta por um mundo menos desigual, ainda na adolescência, e esta é uma das razões para lembrá-lo. Durante o tempo que passou na prisão, inclusive na solitária, amadureceu sua relação com o mundo. E o seu drama tornou-se o drama de uma multidão de leitores de diferentes línguas e de todos os cantos do planeta onde a dor da solidão e das diferenças sociais tocou fundo. Não por menos ele é reconhecido como “o cantor das coletividades”.

Em 2018, a editora SESI-USP reeditou o livro A geração que esbanjou seus poetas, do linguista Roman Jakobson. No livro (de 1931), Jakobson relaciona a morte do poeta com o fim da inspiração das vanguardas artísticas e literárias soviéticas. Como lembra Alexei Bueno, Maiakóvski viveu “num período de entusiasmo irrefreável – algo tão distante dos nossos dias atuais –, de crença plena no futuro, herança da ideologia do progresso cultivada durante todo o século XIX, de sofrimento e de decepção trágica” (in MIKHAILOV, 2008, p. 9). Também no ano que passou, Letícia Pedreira Mei traduziu o longo poema Sobre Isto (Editora 34). Este poema aparece na edição de 2017 das traduções dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos e de Boris Schnaiderman em forma de fragmentos (“Reading Gaol” e “Repassando o Passado”).

Na sua adolescência, Maiakóvski, insatisfeito por escrever só panfletos, dedicou-se a estudar e a projetar o futuro: reorganizou-se intelectual e politicamente. Rompeu com os literatos que apoiavam a Duma (a “assembleia legislativa” do czar Nicolau II, controlada pelo Partido Outubrista entre 1907 e 1912), a ideia de “conciliação” entre o indivíduo e o movimento de massa, e ingressou na Escola de Pintura, Escultura e Arquitetura, em Moscou; depois de dois anos, de debates nos corredores e em salas de aula, declamações de poemas e discursos entusiasmados, abandonou a escola.

De acordo com Mikhailov (2008), a poesia de Maiakóvski “surgiu” em 1909, quando ele começou a escrever – influenciado pelo simbolismo – em um caderno que foi tomado pelos guardas de uma das cadeias em que ficou preso, mas só publicou os primeiros poemas profissionais em 1912, entre eles “Rubro e Branco” (conforme quem traduz, identifica o verso inicial de “Noite”). A partir daí, nasceria o poeta em detrimento parcial do artista plástico, influenciado por Velimir Khlebnikov (1885-1922), autor de KA (Perspectiva, 1977). Nasceria um poeta com “uma obra que se destaca pela marca pessoal, pelo vigor expressivo, pela criação de algo absolutamente novo”, conforme o professor Schnaiderman, no ensaio “Maiakóvski: Evolução e Unidade” (in SCHNAIDERMAN, CAMPOS; CAMPOS; 1989, p. 14).

Maiakóvski mostrou que uma revolução não é feita só com armas em punho e para transformar a política e a economia de um país. No poema Sobre Isto (in MEI, 2015), a revolução também se dá no amor, que deve ser menos egoísta e mais solidário, num cotidiano de mesquinharias e da hipocrisia da família tradicional – como parte de um “programa” por um mundo mais humano –, em que a pessoa amada é aniquilada pelo ciúme e pela rotina. Seu amor por Lilia Brik é revelado nos bilhetes que trocaram durante o tempo em que ficaram separados (período em que compôs o poema), reunidos em L’amore è il cuore di tutte le cose – 1915-1930,organizado por B. Jangfeldt (2005, sem tradução no Brasil).

A poesia de Maiakóvski é monológica e autobiográfica – notavelmente motivada pela sua relação com Lilia –, mas ultrapassa o individualismo na medida em que o poeta provoca a reflexão sobre a missão do poeta: “salvar o amor da miséria da vida cotidiana, expandindo o tema do âmbito individual e elevando à esfera universal” (MEI, 2015, p. 120). Se não serve à sociedade burguesa e se a arte exige uma nova poesia, também o amor também não pode ser burguês, possessivo e ciumento. O amor pregado por Maiakóvski, assegura Mei, é “desapegado do sentimento de propriedade pré-revolucionário e avesso aos ideais socialistas” (2015, p. 124). Ou, como escreve Gladir Cabral, “Maiakóvski foi um homem que viveu grandes e intensos conflitos em sua vida pessoal, amando uma mulher que jamais seria de fato sua, sonhando com uma sociedade em que a justiça e a igualdade fossem plenamente alcançadas, tentando fazer de sua arte um ato político.”2

Musicalmente falando, uma passagem da biografia de Orlando Silva revela a admiração do cantor brasileiro pela cultura russa. Nas palavras do biógrafo, Jorge Aguiar, depois de ouvir Balalaica, que é o nome de um poema do poeta russo e, no caso, era uma valsa-canção composta por Armando Fernandes e Georges Moran ao piano, o “cantor das multidões” gravou a canção em 1938, com arranjo do maestro Radamés Gnatalli, e se tornou um de seus maiores sucessos durante anos. Do “cantor das coletividades” para o “cantor das multidões”, a beleza da lírica oriental se instalou neste país um dia militarizado, hoje desgovernado.

Em 1964, o poema “No caminho com Maiakóvski”, de Eduardo Alves da Costa, foi atribuído ao famoso poeta. No período do golpe brasileiro, ele foi declamado em protestos nas ruas, assembleias de estudantes e sindicatos – como se os versos simples e diretos fossem parte de uma tradução. Só cinquenta anos depois a verdade foi revelada, embora pouca gente tenha acreditado, o que foi suficiente para obstruir a carreira do autor brasileiro. “Esse negócio de Maiakóvski foi uma maldição”, afirma Costa3. Caetano Veloso também inspirou-se em Maiakóvski. Do epílogo de "Sobre Isto", nasceu a canção "O Amor", composta por Caetano e Ney Costa Santos, gravada também por Gal Costa. A canção faz referência ao protagonista Prissípkin, ressuscitado da peça de Maiakóvski, O Percevejo. Encenada em 1981, no Teatro Dulcina, no Rio de Janeiro, a peça, considerada por Schnaiderman o ápice da dramaturgia do poeta russo, foi traduzida e dirigida por Luís Antonio Martinez Corrêa, que tentou montá-la no Brasil em 1974, mas foi impedido pelo veto da censura4. Vitor Ramil fez menção ao poema “Balalaica” (de 1913), na canção “Ibicuí da Armada” (do disco A paixão de V segundo ele próprio, 1984), e Alceu Valença o gravou, na íntegra, no álbum Forró Lunar (2001). Balalaica é o nome da besta que conduziu Guimarães Rosa pelo sertão mineiro, em 1952, quando o escritor viajou guiado pelo vaqueiro e cozinheiro da tropa, Zito, na comitiva que inspirou o romance Grande Sertão: Veredas (FILHO in CULT, 2001, p. 50). Por essas e outras é que nunca se deve deixar de (re)ler Maiakóvski, o revolucionário poeta russo.


REFERÊNCIAS

AGUIAR, Jorge. Nada além: a vida de Orlando Silva. São Paulo: Globo, 1995.
FILHO, João Correia. “Remembranças de seu Zildo.” São Paulo: Lemos Editorial. Dossiê Cult, Revista Cult, 2001, n. 43.
MAIAKÓVSKI, Vladímir. Maiakóvski: Poemas. Trad.: Boris Schnaiderman, Augusto de Campos, Haroldo de Campos. São Paulo: Perspectiva, 2017. Coleção Signos, nº 10. Edição Especial, revista e ampliada.
MAIAKÓVSKI, Vladímir. Maiakóvski: Poemas. Trad.: Boris Schnaiderman, Augusto de Campos, Haroldo de Campos. São Paulo: Perspectiva, 1989. Coleção Signos, nº 10.
MEI, Letícia Pedreira. Sobre Isto: Síntese da poética de Maiakóvski. Dissertação apresentada ao programa de Pós-Graduação em Literatura e Cultura Russa, do Departamento de Letras Orientais da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. São Paulo: USP, 2015.
MIKHAILOV, Aleksandr Alekseevitch. Maiakóvski: o poeta da revolução. Trad.: Zoia Prestes. Rio de Janeiro: Record, 2008.
VÁRIOS. Poesia russa moderna – Nova antologia. Trad.: Augusto de Campos, Haroldo de Campos, Boris Schnaiderman. 2ª ed., revista e ampliada. São Paulo: Brasiliense, 1985 (4ª ed.).

https://alias.estadao.com.br/noticias/geral,longo-poema-sobre-isto-de-vladimir-Maiakóvski-ganha-traducao,700025530421
http://ultimato.com.br/sites/gladircabral/2008/03/22/ressuscita-me/2
https://www.portalraizes.com/no-caminho-com-maiakosvki-do-poeta-eduardo-alves-da-costa/3

https://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs1309200918.htm4

 

Comentários:

Envie seu comentário

Preencha os campos abaixo.

Nome :
E-mail :
Cidade/UF:
Mensagem:
Verificação: Repita os caracteres "331111" no campo ao lado.
 
  

 

Voltar
Site desenvolvido por metamorfose agência digital

DEPOIMENTOS

"Fiquei muito satisfeito com o conteúdo da Oficina. Minha experiência com escrita, agora vejo com maior clareza, era inteiramente prática ou intuitiva e, certamente, passível de ser substancialmente melhorada. Gostei muito da orientação obtida através da Oficina e, em particular, da tua avaliação do material dos desafios."

Décio Oliveira Elias,
Rio de Janeiro, RJ

mais depoimentos

 

Para Oficina de Criação Literária

 

 

 

curso desenvolvido pela