Prata do tempo, de Letícia Wierzchowski

Amanda Santos

Enquanto o tempo se desenrola entre as paredes de uma mansão talhada pelo amor, gerações de uma mesma família percorrem a vida, em uma narrativa sensível, traço dessa excepcional escritora. Com fabulosidade, Letícia nos mostra a essência das pessoas além do tempo.

Narrada pela voz de Laila e por sua solidão, imergimos nos abismos e amores da família Serrat. Laila começa pelos avós. No litoral de uma pequena cidade carioca, conhecemos Leontina. A moça que, por suas ancas largas, é escolhida pelo avô de Laila. Como a maioria das mulheres da época, não foi dada a Leontina a chance de escolher, e ela acaba enredada em um casamento sem amor, com um homem maçante e hostil. O avô, como Laila o chama, apenas se alegra quando a mulher gera um filho homem, no ano de 1909.

Augusto deveria ser advogado, mas seu espírito era livre, e o menino cresce sujo de barro e cheirando à mar. Ganha uma irmã aos sete anos, Alice, desprezada pelo pai desde o nascimento por ser mulher. Os anos passam, Augusto se torna um talentoso comerciante marítimo, e nos mares da França descobre o que é amar na jovem e bela Eleanor. Os dois se casam ainda no navio, quando ele a leva para sua cidade natal. Ergue para ela uma enorme casa, o ponto central por onde discorrem as páginas da família. Imensa e surreal, ela é o próprio amor e a loucura. Desenhada no delírio da paixão de Augusto pela mulher.

Deste amor, nasce Laila, que cresce perdida no labirinto de sua morada. De sua mãe com ares de fada, etérea e frágil, Laila quase nada se lembraria, tendo ela morrido quando a menina tinha dois anos. Eleanor, tombando do cavalo e morrendo sem dor, leva consigo todos os sorrisos de Augusto, sua juventude e capacidade de amar. Por muito tempo ele seria só silêncio, infringindo na filha uma infância sem palavras. Augusto não volta a encontrar o amor, e nós, leitores, só o encontramos quando, aos dezesseis anos, Laila conhece Inácio, vindo de longe para trabalhar na imensa propriedade. Deles nasce Theodoro. Augusto morre jovem, antes de saber do neto que a filha carregava no ventre.

Theodoro vem ao mundo para iluminar os que o cercam. Suas mãos curam. Ainda criança sabe das dores, procura os enfermos e trata o sofrimento alheio. Porém, a inveja e a ignorância dos homens não tolera a ajuda que o menino é capaz de dar, e Theodoro acaba vítima do preconceito. O aposento onde trabalhava é incendiado, e na tentativa de salvar o filho, Inácio também perece.

Perdendo os dois homens que mais amava, à Laila resta a filha. Linda como Afrodite, sua beleza atormenta os homens ao seu redor, e é capaz até mesmo de causar o suicídio de um. Por fim, quando Ariana encontra o amor em um velho amigo de seu irmão, e com ele parte da casa, Laila se vê sozinha, e ao mesmo tempo rodeada pelos fantasmas dos que se foram.

Letícia desfia esses personagens, iluminando de vida suas palavras, narrando a história do tempo através de uma só família. Amor que é loucura, saudade que é alívio, perdas, fantasmas, belezas indizíveis. Somos convidados a fabular a vida, sofrer o amor e desafiar a razão. Somam-se os sonhos e ergue-se a história.

 

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Décio Oliveira Elias,
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