Cristal Polonês, de Letícia Wierzchowski

Madalenna Leandra Alves Martins

Ela tinha 12 anos, no máximo, quando a capa daquele livro lhe sugeriu algo. A criança da bolha de sabão fez com que a menina de uma dúzia de aniversários pousasse os olhos sobre o livro que a mãe havia trazido da faculdade. Bolhas de sabão sobre bege, ou um dourado desbotado. O título que, imaginava ela, contava a história de uma cristaleira antiga de família e, acima, o nome da autora, um conjunto de letras cujas sílabas ela não havia aprendido nas aulas de fonética. "Muito bom pra brincar de forca."

Sim, Wierzchowski era um ótimo nome pra brincar de forca. E Leticia era o nome dado a um bebê atirado pela mãe na Lagoa da Pampulha dentro de um saco plástico. Disseram os pais adotivos que significa felicidade, isso eu ouvi nos jornais. E, novamente, tudo fazia algum sentido para a menina que decidiu abrir o livro.

Não era sobre uma cristaleira antiga. Era mais sobre brincar de forca e imersões. Era mais sobre os diálogos da lagoa e sobre tudo que é grande demais pra caber, tudo que sobra, tudo que resta e, sobretudo, tudo o que falta.

A menina abriu o livro e se deparou com outra menina como ela, usando as roupas que deixavam de caber nas primas, vestindo a melhor peça para andar de ônibus pela cidade. Uma família que tem um dia de sorte para trinta dias de azar. Uma família como a dela, como muitas que ela conhecia.

E a menina leu o livro. E compreendeu que o bege dos seus dias eram apenas ouro desbotado. Compreendeu que brincar de forca é ganhar um corpo para perder o jogo e que isso é também a vida. E, finalmente, compreendeu que amar é imergir.

 

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