Um clássico quatrocentão

Maria Tereza Jorgens Bertoldi

Os clássicos são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: estou relendo e nunca estou lendo tal é o prazer que desperta no leitor a avidez pelo consumo das páginas escritas. Um livro torna-se clássico quando atravessa séculos e fronteiras culturais e continua sempre a ser lido e desejado. É o que torna a obra eterna.

Assim aconteceu com Dom Quixote de Miguel Cervantes, escrito na Espanha, em 1605. Um clássico quatrocentão: uma extraordinária aventura que, ainda hoje, e talvez para sempre continue a desafiar o homem, dividido entre razão e ilusão, a entender as aventuras e desventuras do seu semelhante. Não é à toa que escritores de 54 países do planeta elegeram Dom Quixote o melhor livro de ficção de todos os tempos. Um clássico no melhor estilo da criação literária, a fantasia derramando-se em aventuras e façanhas extravagantes. A grande arte de Cervantes foi, sem dúvida, satirizar o romance de Cavalaria, um modelo já esgotado em seu tempo, e que se ocupava de narrar os feitos de cavaleiros andantes em busca de aventuras, percorrendo terras fabulosas.

Inspirado nos livros de cavalaria dos autores espanhóis e italianos entrou no mundo dos clássicos. Cria a figura genial de D. Quixote e com ela consagra princípios humanos, que embora deformados pela loucura do personagem, ainda permanecem vivos em pleno século XXI. Surge, então, um novo modelo de heroi, aquele que não maneja armas e não vai ao campo de batalha, mas aposta seus atos heroicos nos próprios sonhos.

Os livros de cavalaria, durante muito tempo, transtornaram a cabeça das gentes. A partir de tropeços numa inventiva única, um fidalgo arruinado que chamou de D. Quixote de La Mancha, retoma o sonho das aventuras e sai mundo afora montando um cavalo magricela, decrépito, por ele chamado Rocinonte na defesa dos mais fracos e com a ideia de vencer o Mal com o Bem. Entretanto, Dulcinéia de Toboso, uma campesina que ele no delírio de sua fantasia a tomou de paixão, foi objeto de sua devoção. Sob a alucinação de que estava vivendo na Era da Cavalaria, em suas viagens enfrenta situações ridículas e penosas compartilhadas com o fiel escudeiro Sancho Pança, um ignorante camponês seu vizinho. Acreditando ser o mais famoso e invencível cavaleiro andante nascido na região da Mancha, na Espanha, constrói na mente desvairada um mundo privado da razão. Mergulha nas visões dos seus delirantes pensamentos e luta contra fantásticos gigantes de compridos braços: pás de moinhos girando ao vento. Perdera a razão para viver o irreal.

Derrotado pelo Cavaleiro da Branca Lua, amargurado, adoece defendendo sempre o seu amor pela misteriosa Dulcinéia. Melancólico e febril recobra a consciência e, num rasgo de graça divino, lúcido reconhece os disparates que cometera. A vida lhe foi generosa na dimensão das aventuras que permitiram satisfazer seus insaciáveis desejos pelo bem dos mais fracos e indefesos. Morre como um guerreiro sem espadas. Um heroi de boa fé. Sua mais bela façanha: acreditar nos sonhos.

Cervantes, na figura de Dom Quixote, mostra a dualidade do ser humano que, peregrino, caminha enfeitiçado pelos sonhos lutando contra moinhos de vento, esbarrando, muitas vezes, numa realidade contrastante com a visão das suas ilusões, disfarçado de cavaleiro andante. Alguns Dom Quixotes. Outros Sanchos Pança. Dois princípios de vida que Cervantes imortalizou como símbolos do homem.

 

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