O turista imaginário – Prado Antônio

Simone Saueressig

Quando vi, estava em Prado Antônio. Construções cada vez mais consistentes emergiam da névoa cinzenta e rala, erguendo-se do solo molhado por onde rodava o micro ônibus e consolidando a cidade ao redor da estrada – que virou avenida – que ganhou calçamento de paralelepípedos encaixados uns nos outros rumo à praça central. Até lá, Prado Antônio era uma cidade de interior, com desejo de ser moderna. Na praça não. Na praça ela é o que era há muito: renda frivolité de madeira, tecida com a neblina úmida da Serra. As casas históricas, chalés com as beiras recortadas, regidas pela igreja branca sobre a escadaria larga, cujo degrau mais baixo se mescla à rua, como se fosse a margem de um rio. Eis que sou cais de almas, diria algum evangelista apócrifo. O trânsito se arrasta, moderno e ruidoso, uma procissão de motores, anúncios, aceleradas, pneus, as janelas abertas deixando escapar a voz do locutor da rádio, o grito do radialista de futebol, o comentário mordaz dos críticos da realidade.

Como sempre, as portas abertas da igreja são um convite: ao frescor, ao silêncio, à intimidade. Dentro da nave às margem do tempo Hoje esvoaçam passarinhos como se fugidos de algum poema, refugiados da urbanização. Eles circulam com piados atrevidos, se enfrentam, me vigiam, desconfiados, arredios e sempre adoráveis. Pássaros dentro de uma igreja me lembram pedaços de preces escapados dos lábios dos crentes. Nunca se ouve tudo o que dizem.

À tarde, o tempo entreabriu as nuvens e ameaçou um céu azul por alguns minutos. Depois encerrou-se, carrancudo, empurrando a temperatura para baixo com a ajuda de outra garoa cinzenta. Dentro da roupa, a sensação era de calor e abafamento. Um suor pegajoso que, já sabia, em minutos se tornaria uma segunda pele gelada. Com passos largos, busquei abrigo em um dos chalés históricos, onde havia uma loja de artesanato local. Tudo de delicado e miúdo, feito à mão. Coisas feitas à mão me fascinam. Transformar pano branco e linha informe em flores, pássaros, sol, tudo o que a garoa fria esconde, é de uma delicadeza imensa. Não é acreditar em outros tempos mais dourados, é saber outros dias mais coloridos. Coisas feitas à mão tem consigo sabedoria e esperança que nenhum aplicativo virtual pode oferecer. Elas são tangíveis. Transformadas de uma coisa em outra, alquimia do tempo. Imagino uma cozinha escura, a única luz fria entrando por uma janela sobre o fogão à lenha, onde uma chaleira ferve água com folhas de eucalipto. O cheiro mentolado e bom flutua pelo aposento. Uma mulher está sentada à luz, inclinada sobre um pano branco, a agulha em sua mão puxando a linha, a única réstia de cor que há ali. Um gato cochila na outra cadeira, aproveitando o calor do fogão. Uma menina irrompe trazendo o sol consigo, o sol em seu sorriso. Eu sorrio de volta para a cena. Mais do que imaginação, é lembrança.

Quando me afasto da casa, espio sobre o ombro e vejo em uma janela, no alto de um dos chalés, uma sombra diáfana, que me encara triste e sombria. Eu aceno. A sombra se move. Acena? A chuva aumenta. Era só uma cortina junto à janela. Não era?

À noite a igreja se coroa de estrelas. Parece uma promessa, mas como muitas promessas, não se cumpre. Na partida, a cidade se dilui nas janelas da condução, chuva e, quanto mais afastados do centro, escuridão, até que Prado Antônio se apaga na noite e no caminho atrás de nós. Na conversa amena dos outros viajantes, a calidez do vinho do jantar. O meu foi rosado, como os lábios da menina da lembrança imaginada, suave como a luz no interior do cais de almas habitado por pássaros que se alimentam de migalhas de preces e pedaços de pão.

 

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Décio Oliveira Elias,
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