No exílio do isolamento: Exercício para viajar sem sair do lugar, ler Sousândrade

Dinarte Albuquerque Filho

O tempo de forçado isolamento provoca movimentos diferentes daqueles a que estávamos habituados, muitos deles começados pelo vocábulo “re”. Recolher-se, refletir, repousar, reconsiderar, remanejar, respirar fundo. Reler.

Entre tantos livros à espera, reencontro Sousândrade, nascido Joaquim de Sousa Andrade em 9 de julho de 1833, ainda hoje pouco lido, ainda hoje na periferia dos movimentos literários. Desde que publicou o primeiro livro, Harpas Selvagens, em 1857, de tempos em tempos, ele é reposto em circulação.

Morto há pouco mais de 100 anos, o autor maranhense permanece extemporâneo. Relacionada literariamente à segunda geração do Romantismo brasileiro, que teve, de certa forma, um viés “revolucionário e inovador”, como reconhece Luiza Lobo, em 1986, a poesia de Sousândrade sinalizava aproximações com o modernismo do século XX, em função de sua racionalização crítica e estética.

Ousado no vocabulário, com o uso de palavras em inglês e neologismos, Sousândrade também incorporou palavras indígenas, especialmente em seu poema mais conhecido, O Guesa (que significa “errante, sem lar”), onde também narra o extermínio dos povos indígenas resultante da exploração dos povos europeus.

Por flóreas zonas d’equatóreas calmas,
Da serra à sombra, há paz e força havida,
Da Região-Desolada, longe, onde almas,
Morrem, ‘ar, ondas sem sinal de vida! –
Por ‘í veio Pizarro, ou vindo, oh, Zac!
De Curo-Sivo, Typhon lh’inspirara!
Quem andou por aqui foi Manco-Cápac,
Que um reino meigo paraisal fundara.


O poeta, a certa altura, revelou: “Ouvi dizer já por duas vezes que ‘o Guesa Errante será lido cinquenta anos depois’; entristeci – decepção de quem escreve cinquenta anos antes.” Essa percepção, quase visão, não se restringe apenas à recepção de sua obra. Está nela. Ao romper com a métrica e com o ritmo tradicional dos versos, ele foi praticamente ignorado pela crítica literária da época, só tornando objeto de estudo a partir de Silvio Romero (1851-1914), que, preso ao cânone em História da Literatura Brasileira (1888), identificou Sousândrade como um poeta irregular, de pouca inteligibilidade, no que foi seguido pelo grande crítico Antonio Candido, em 1959, quando incluiu o poeta maranhense entre os românticos “menores”, ou “secundários”.

Haroldo de Campos, assim como fizera com o poeta baiano Gregório de Matos (em O sequestro do barroco na formação da literatura brasileira – o caso Gregório de Matos, 1989), que por anos ficou de fora dos estudos literários, contribuiu para que Sousândrade passasse a ser lido criticamente.

A leitura de Sousândrade nos dias de hoje, além da atualidade da forma, provoca a reflexão sobre o momento em que a cultura indígena brasileira sofre um dos maiores ataques do modelo político e econômico. A história narrada pelo poeta maranhense, composta entre 1852 e 1877, e editada em 1884, ainda com cantos inacabados, gira em torno do culto solar dos indígenas colombianos.

A personagem é uma criança, roubada dos pais para ser sacrificada em nome do deus-sol, Bochica, aos 15 anos. O rito de passagem da infância à maturidade transforma o jovem em “deus”. Os primeiros cinco cantos são reservados para descrever o culto, a trajetória do guesa, dos Andes ao Amazonas, as críticas à nobreza, ao clero e à justiça, até que a personagem identifica-se com o poeta, um Sousândrade-Guesa – e onde, pela primeira vez, a personagem desce ao inferno, em “Tatuturema” (Canto Segundo).

Seguem os cantos Sexto, Sétimo e Oitavo [1857-1870] (“Nos portos do oceano, cetinosas/ Azuis-luzentes velas se ferrando”), segue a viagem. O Canto Nono [1871] encontra o poeta em águas amazônicas, navegando para as Antilhas, cruzando o golfo mexicano até chegar à costa estadunidense. No Canto Décimo, encontramos o poeta em Nova York, em companhia da filha. É, talvez, o ponto máximo do cosmopolitismo e da crítica ao capitalismo financeiro.

“A Bíblia da família à noite é lida;/ Aos sons do piano os hinos entoados./ E a paz e o chefe da nação querida/ São na prosperidade abençoados.// – Mas no outro dia cedo a praça, o stock,*/ Sempre acesas crateras do negócio,/ O assassínio, o audaz roubo, o divórcio,/ Ao smart Yankee astuto, abre New York.”**

A linguagem de Sousândrade é vista como caótica por Ana Carolina Cernichiaro, no artigo “O poema como exílio – Sousândrade-Guesa em ‘O Inferno de Wall Street’”, de 2007, como a de “um estrangeiro em sua própria língua”. E nesse caos ocorre a segunda descida ao inferno, versificada a partir de um período de grandes transformações na vida americana – falcatruas, ruína econômica de milhares de famílias, corrupção... A Bolsa de Valores é a materialização tártara, e figuras como a família Vanderbilt (que chegou a ser a mais rica dos Estados Unidos) e o banco Brown Brothers Harriman & Co., são a personificação dos demônios do imperialismo.

Saído do inferno, o guesa (viajante) toma o caminho de volta. No Canto Décimo Primeiro, ele revê as paisagens dos Andes, fala dos revolucionários latino-americanos e chega à Argentina. Dali, segue pelo Chile até a Patagônia, no Canto Décimo Segundo. Cansado e doente, retorna ao Maranhão para uma nova visita – estado que está presente nos cantos IV, V, VIII e XIII. Maranhão, o “’mundo’ dos selvagens ameríndios sacrificados pelos colonizadores brancos europeus”, conforme interpreta Tânia Valadão (1986).

Talvez o poema possa ser visto como um retrato do caos, como um relato do genocídio indígena; talvez como um utópico encontro dos povos, em que ninguém abre mão de suas diferenças, concepção que o poeta se reserva o direito em não aderir ao establishment. O que há de certo é uma visão estética adiante de seu tempo e uma linguagem que cria fissuras entre a realidade e a fantasia. O entre e o fora, como sintetiza Cernichiaro. Bom motivo para os tempos de recolhimento e exílio involuntário, em que é preciso viajar sem sair do lugar.

* Stock: Stock Exchange – A Bolsa de Valores
** Smart: astuto (inglês)

 

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