O último abraço que eu não te dei

Silvia Generali da Costa

O último abraço que eu não te dei, de Lúcia Glaci Votto, é baseado em um fato real, embora o texto encontre um leitor que se recusa a acreditar no que lê.



A autora, mãe cujo luto jamais cessa, apenas se transforma, perde a filha para a violência urbana mesmo quando acredita estar fazendo tudo para protegê-la. O texto é escancarado, de alma aberta, escrito na forma como é sentido. São parágrafos doloridos, difíceis, inaceitáveis e incompreensíveis.

Lúcia não nos fala da perfeição dos mortos e nem da família de comercial de margarina. Ela fala de uma mãe que questiona se está agindo corretamente na criação dos filhos, da filha adolescente que tem problemas e da família que se desentende mas que é unida por laços inquestionáveis de amor.

Tive de voltar mais de uma vez à descrição da cena do assalto, pois não a entendia. Passei a compreendê-la quando percebi que esta narrativa não é a narrativa linear e objetiva de um fato. É a narrativa do estado de choque, da rapidez com que tudo ocorreu, da imprevisibilidade, do susto, da dor e da incredulidade.

Bruna Agra Tessuto, escritora que apresenta o livro, refere que ninguém se atreveria a imaginar a dor da família. Eu não me atrevi. Tenho uma filha adolescente que em 2015, um ano antes da perda da jovem personagem, sofreu três assaltos à mão armada. Três roubos de carro. Em dois ela estava comigo e no último com minha irmã. No primeiro assalto, caiu por terra minha ilusão de que, por estar comigo, minha filha estaria protegida. No segundo, percebi que seriam necessários mas insuficientes todos os cuidados sugeridos pela Polícia para evitar assaltos. No terceiro assalto, só pude rezar mesmo sem ser religiosa.

Lúcia também estava certa de estar sendo cuidadosa. Ela fez tudo da maneira mais correta. Ficou atenta, protegeu, buscou. A família toda estava junta. A menina não reagiu. O desfecho mostra nossa impotência diante da violência, do imponderável, dos fatos da vida, dos desígnios de Deus, sei lá.

Com seu relato intenso e sofrido, a autora sugere que há um momento em que o “e se” deve parar. Que a imaginação precisa se desencontrar da culpa e da onipotência de supor-se que era possível fazer algo. A imaginação volta-se então, para a arte escrita.

Ao final, a literatura serve para compartilhar o incompreensível, para dividir a dor indivisível e própria e para imaginar um último abraço, aquele que nunca mais será dado.

 

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