Os Bastidores de Emma

Silvia Generali da Costa

A primeira narrativa longa da porto-alegrense Bruna Agra Tessuto apresenta as agruras de uma jovem atriz, tendo por cenário o curso universitário de Artes Cênicas.



A personagem se vê subitamente privada do que lhe era mais caro: seus amigos, seu primeiro grande amor, seu papel na peça de encerramento do curso e, até, parte de sua identidade. Perde seu chão, sua saúde e sua família cenográfica, o “Team Família Duncan”. Tudo isso numa fase da vida em que mais necessita de apoio, que é o momento de finalizar a faculdade e abandonar a identidade de estudante, de se voltar para fora da família de origem e de construir novos cenários para si mesma, constituídos de adultez. Bea entra em um grave quadro de depressão e de estresse pós-traumático, até uma tentativa de autorresgate através da escrita, com o apoio dos verdadeiros amigos.

O livro se mostra rico pela diversidade de pontos de análise. É possível questionarmos as razões da escolha de uma determinada peça ou papel e os paralelos entre atores e personagens. Também podemos dirigir nosso foco como leitores para o simbolismo psicanalítico dos tripés, presentes nas relações iniciais e nas relações finais de amizade e na trama da peça.

Por conhecer de perto o ambiente universitário, por ter estudado longamente o tema da liderança e gestão e por ser psicóloga, optei aqui por enfocar duas questões que são essenciais neste enredo: a responsabilidade e a amizade.

Os amigos de Bea, a personagem principal, a excluem de forma cruel e ilegítima de um trabalho que sempre foi uma construção grupal. Inveja? Competição? Covardia? Obediência? Medo inconsciente de desintegrar o que restava dos laços do grupo? Cada um destes elementos pode ter contribuído um pouco para o doloroso desfecho. Leon é um personagem patético e adoecido que se vinga da pior forma pela grave ofensa de que foi alvo: ser amado apaixonadamente por Bea.

Mas não posso deixar de pensar que tudo poderia ter sido muito diferente se as orientadoras compreendessem e assumissem seus papéis. O papel de orientar jovens em final de curso e, portanto, em início de carreira, não é nem jamais será somente técnico. Marci e Ana Celeste tinham o dever de impedir que este pequeno grupo teatral praticasse esse ato de indiferença com a colega fragilizada, algo do qual jamais se orgulharão.

Até é possível entender que um grupo de jovens, pressionados pela necessidade de concluir o curso, pelas expectativas familiares e próprias de sucesso acadêmico e pela firme intenção de agradar aquela que iria avaliá-los, possa ter cometido erro tão grosseiro. Não é completa surpresa que um jovem atrapalhado em seus sentimentos e em sua autoimagem, como Leon, cometa falhas. O que não é possível aceitar é que estes jovens não tenham sido impedidos, perdendo assim uma ocasião ímpar de aprender sobre empatia, solidariedade, amizade e união. A frieza das orientadoras ao encontrar Bea na cena da cafeteria remete ao clima de avaliação, produtivismo e exclusão que assola as universidades brasileiras: quem não está em perfeitas condições de produzir, que pereça.

Restou a Bea, em sua reconstrução, novos e verdadeiros amigos, os quais lhe deram seu apoio, afeto e solidariedade desde o início. Quando tudo o mais parece se perder, não será este o grande encontro?

 

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"Fiquei muito satisfeito com o conteúdo da Oficina. Minha experiência com escrita, agora vejo com maior clareza, era inteiramente prática ou intuitiva e, certamente, passível de ser substancialmente melhorada. Gostei muito da orientação obtida através da Oficina e, em particular, da tua avaliação do material dos desafios."

Décio Oliveira Elias,
Rio de Janeiro, RJ

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