O Especulativo 4321 de Paul Auster: “E se...”

Aletheia de Almeida

Há muito tempo não me angustiava a ideia de chegar ao fim de um livro que se fez companheiro. Aconteceu agora com 4321, último livro de Paul Auster, publicado em 2017. É o meu primeiro Paul Auster – sempre quis lê-lo –, mas já sei que é um romance atípico, se comparado com os demais 16 romances publicados pelo autor, desde 1982, quando estreou na literatura com a publicação de A Invenção da Solidão, um misto de memórias sobre seu pai e reflexões sobre o ofício de escrever. De lá pra cá, uma marca que identifica o escritor, poeta, roteirista e tradutor, Paul Auster, é a brevidade de suas narrativas que giram em torno de fatos corriqueiros do cotidiano, pontos de partida para discussões sobre identidade, acaso, peso das escolhas, “self”, vida, mortes súbitas, solidão e efemeridade de nossa passagem pela Terra.

4321 é atípico porque não é breve e, também, por conta de sua estrutura narrativa. São mais de 800 páginas, coalhadas de referências autobiográficas, em meio a uma rememoração sobre fatos políticos, sociais, culturais que marcaram os Estados Unidos das décadas de 50 e 60 do século passado. Assim como Auster, o personagem principal do livro, Archibald Isaac Ferguson ou Archie Ferguson, nasceu em Newark, em 1947, estudou na Universidade de Columbia, tendo se formado em 1970, morou na França, traduzia poesia francesa, era um leitor voraz, um apreciador do cinema e dos filmes de comédia dos anos 1950 (em algumas de suas vidas e não tudo ao mesmo tempo). Mas Archie não é Paul Benjamin Auster. Segundo indicação do próprio autor, suas vidas, no máximo, correram em paralelo; e 4321 é muito mais um exercício de especulação sobre os efeitos do acaso na construção da identidade das pessoas. Assim, o esqueleto do livro alterna capítulos que enveredam por quatro possibilidades de construção narrativa, dando forma e articulação – e colocando de pé – quatro Fergusons distintos.

A proposta é ambiciosa. O leitor tem diante de si quatro versões sobre um breve período da vida de Archie que coincidem com vinte e um anos turbulentos da história dos EUA. Na verdade, arriscaria dizer que são quatro Archies ligeiramente semelhantes, mas totalmente distintos (Lembrei muito da leitura de O Mundo Pós-Aniversário de Lionel Shriver). Apesar da aparente contradição e da envergadura do projeto, 4321 não é épico, nem pretende ser; é, ao contrário, singelo, cativante, ligeiro e crítico. Auster não se furta de indicar de que lado da história esteve ou de debater o caráter conservador da sociedade norte-americana ou, ainda, de indicar como, muitas vezes, a política doméstica dos EUA pôde ser rasteira e injusta com muitos dos cidadãos da geração de Auster - sem mencionar a política internacional completamente equivocada, sobretudo no caso da guerra do Vietnã. Tudo isso, no entanto, ao contrário de ser enfadonho e panfletário, ajuda a transformar memória autoral em arte, uma vez que confere verossimilhança ao texto de ficção. O leitor acredita em Archie, aproxima-se do personagem, torce por ele e escolhe seu Archie preferido. Nas brechas factuais, marcos realistas da narrativa, Auster constrói seu texto ficcional.

O tempo todo fiquei pensando qual seria a melhor maneira de ler o livro. Pensei que seguir os passos de um Archie de cada vez, esgotar aquela encarnação, para passar à seguinte, poderia me render uma leitura mais linear e exaustiva. Ao mesmo tempo, pensei: pra quê? Linearidade é algo que Auster rejeita, claramente. Decidi, então, encarar o desafio de acompanhar um pouquinho de cada versão do personagem, sempre tendo que voltar ao capítulo anterior daquela vida, a fim de recordar de que Archie se tratava. Parece meio tortuosa e cansativa a forma de narrar do autor – até porque usa tanto no nível do texto, quanto no da frase, uma espécie de técnica matrioska que o auxilia no desvelamento, por camadas, das verdades de seus personagens, até alcançar o núcleo da narrativa. É dessa maneira, no entanto, que Auster consegue criar um personagem no qual o leitor tem fé e deposita suas esperanças. Assim é que quem está segurando o calhamaço 4321 se afeiçoa à narrativa, considerando, inclusive, os finais muito abruptos, querendo acompanhar, também, os quatro Archies em suas vidas adultas, por mais 20 anos ao menos.

Confesso que a vontade, agora, é começar 4321 novamente, atentando para elementos e detalhes que pareceram irrelevantes no princípio da leitura, mas que, seguramente, ajudaram a compor as personalidades distintas de Ferguson. Aliás, acredito que, no final, pode ser essa a intenção de Auster: fazer com que o leitor pondere cada pormenor que o levou a tomar uma determinada estrada – “E se...” – de sua própria vida, com os pesos que cada mudança, ínfima ou substancial, pode ter na definição de quem se é, de quem se poderia ter sido.

Há muito não encarava o desafio da escrita. Entretanto, o empenho, a determinação, a disciplina, a coragem, o talento de Auster, expressos por intermédio de Archie Ferguson – um escritor, ele próprio –, inspiraram-me e motivaram-me a encarar o papel em branco mais uma vez. Pode não ser o melhor Auster, como vi, dito por aí pela Internet (não tenho condição de avaliar isso, no momento, por ser a primeira obra do autor que leio), mas valeu a leitura, apenas por ter-me feito chegar até aqui, resgatar prazeres perdidos e rever temores e inseguranças recentes. Sempre serei grata e apreciadora.

 

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