O Mundo Pós-aniversário. O que seria de nossos destinos, caso...

Aletheia de Almeida

"Alguns amigos viam Irina-e-Lawrence como um dado factual, como a existência da França. Outros confiavam no casal como um parâmetro, a prova de que era possível ser feliz; esse papel era um fardo. (...) Como o amor não chegara cedo nem com facilidade em sua vida, Irina (...) considerava um milagre seu relacionamento com Lawrence. Ele era um homem dedicado, divertido e inteligente, além de amá-la. [Ela] não estava interessada em saber se as feministas afirmariam que ela não precisava de homem; ela precisava, sim, mais que de qualquer outra coisa no mundo".

O Mundo Pós-aniversário é um livro de 2007 de autoria de Lionel Shriver. Já li dois outros romances --- Dupla Falta e Precisamos Falar sobre Kevin --- dessa escritora supertalentosa, de humor refinado, que produz textos lúcidos, inteligentes e dinâmicos, em que quadros psicológicos e análises político-culturais e sociais se misturam com maestria. O Mundo Pós-aniversário tem em si impressa essa marca de autor; mas, diferente dos outros dois, tem uma estrutura espelhada, desafiadora em sua elaboração --- imagino --- e, também, em sua leitura. A partir de um único evento, Irina McGovern, uma ilustradora norte-americana de livros infantis, vê-se diante de uma escolha que definirá para si dois destinos drasticamente opostos. Alternando dois universos paralelos, nos capítulos posteriores a esse evento, Shriver nos apresenta os desdobramentos, implicações e consequências de uma escolha e de uma não-escolha. O que é mais primoroso é que o primeiro e o último capítulos são únicos para ambos os destinos. Quer Irina ceda à tentação irrefreável de beijar ou não Ramsey Acton, Shriver nos apresenta o mesmo ponto de partida e de chegada; traçando, no entanto, trajetórias distintas para Irina entre o prelúdio e o epílogo de sua história.

O primeiro capítulo nos apresenta Irina em um relacionamento sólido, apesar de não formalizado, com Lawrence Trainer, um intelectual norte-americano, disciplinado e comedido, que trabalha em Londres, num centro de estudos estratégicos, analisando e acompanhando o recrudescimento do terrorismo mundial. A vida do casal é regrada; e sua rotina, praticamente imutável. Imutabilidade esta que se aplica ao sexo também, como não poderia deixar de ser. Tudo muito morno, insípido, monótono; mas absolutamente sólido, estável e seguro --- talvez a execução dessa formula perdurasse no tempo, caso o ponto nevrálgico e cataclísmico não fosse o fato de que, apesar de abrigada e protegida em seu apartamento acolhedor e íntimo, Irina não estivesse profundamente frustrada com os rumos de seu relacionamento. Irina sabe que estar casada com Lawrence é a coisa certa a se fazer. Sabe que estar em Londres, ao lado desse homem, tem um quê de desafio transposto com sucesso, para a norte-americana média. Sua vida é boa, por que mudar?

Irina trabalha em parceria com Jude Hartford, autora de livros infantis, uma mulher excessiva e inconveniente. Jude está casada com Ramsey Acton, jogador de sinuca, mais velho, sensual, rico e uma celebridade no Reino Unido, onde esse esporte é popular e conceituado. Sempre no aniversário do marido, Jude convida o casal Irina-e-Lawrence para celebrarem juntos a data feliz. Coisa de casal em crise; mas também uma rotina e um padrão a que Lawrence é afeito e se agarra com unhas e dentes. Até porque Lawrence deseja estar próximo daquela celebridade britânica e talvez, com isso, fazer mais parte do cotidiano do país e ultrapassar suas origens e trajetória humildes, em Las Vegas. Após uns quatro ou cinco aniversários festejados assim, os dois casais já se consideram amigos; num determinado ano, no entanto, Ramsey já não está casado com Jude; Irina já não trabalha mais com a ex-mulher de Ramsey. Lawrence está viajando a trabalho. Em Londres, restam apenas Ramsey e Irina. Manter ou não manter a tradição? Por que não, afinal; se, de fato, todos se tornaram bons amigos? Nos deparamos, então, com o início do dilema de Irina; ir ou não ir sozinha jantar com um homem que não é seu marido? Vestir uma roupa sexy ou outra despojada que não passe nenhuma mensagem equivocada? Escolher um restaurante simples, sem grande significado, ou um restaurante caro e maravilhoso, impregnado de romantismo? Afinal, ela está saindo num “date” com outro homem ou trata-se apenas de mais um aniversário de Ramsey?

De qualquer forma, independente das dúvidas dilacerantes da personagem desiludida, o mundo de Irina, após este aniversário do jogador de sinuca, não será mais o mesmo. Há quem veja Irina como uma “profissional acomodada” que, a partir da escolha em questão, se colocará “sob a influência de dois homens radicalmente diferentes” (sinopse do site Skoob). A mim não me pareceu que Irina é uma pessoa simplesmente incongruente ou desmotivada, apenas uma mulher que está submersa num lago congelado e não sabe o que há para além da capa sólida de água --- e está quase ficando sem oxigênio, ali embaixo. Extremamente perfeccionista, está embotada, à sombra de Lawrence que a trata de forma paternalista, protocolar e, às vezes, até rude.

Presenciamos, então, esse embotamento e o esgarçamento paulatino do relacionamento com Lawrence, no futuro em que Irina permanece a seu lado (o que nos faz imaginar que, beijando ou não beijando outro homem, seu casamento de fato estava com os dias contados); no futuro ao lado de Ramsey, ao contrário, Irina floresce, redefine-se, penosamente diga-se de passagem, como mulher e como profissional. Isso porque o jogador de sinuca revela-se extremamente possessivo e egocêntrico, e sua sombra parece ainda mais escura e densa que a de Lawrence --- apesar de que Ramsey compensa esses pontos negativos com amorosidade e paixão. É aquela velha máxima: nada é perfeito, e nenhum relacionamento sai incólume de crises existenciais, financeiras ou de poder. Shriver é perspicaz nesse ponto: qualquer que seja a decisão de Irina, a vida não estabiliza. Estar vivo é emergir e submergir, incessantemente, até darmos o suspiro derradeiro. Não há certos e errados, apenas pessoas tentando sobreviver e, quem sabe, ser felizes. Por isso não acho que esses homens influenciaram Irina e determinaram unilateralmente o futuro da personagem: em qualquer relação um cede mais que o outro ou vive mais ou menos à sombra do outro, dependendo do momento em que estão. Assim, se alcança o equilíbrio, mensurando as forças externas do meio, vis-à-vis às forças internas da relação.

Essa estrutura espelhada de O Mundo Pós-aniversário me fez lembrar de uma deliciosa elucubração de infância. Além dos amigos imaginários tradicionais, costumava acreditar que havia outra de mim, vivendo do outro lado da Terra --- leia-se: na China. Era algo como a existência do clone sombrio, Bizarro, para o herói Superman. O meu eu chinês era o oposto de mim e vivia uma vida minha paralela. Assim como há uma Irina que opta pela estabilidade de seu casamento com Lawrence; há outra Irina que cede à curiosidade de saber como ela seria em sua outra versão, fora do lago congelado – ou como seria o seu eu chinês. Com uma ressalva apenas: ao longo da alternância dos capítulos, fui vendo cada vez menos oposição entre as Irinas e mais complementariedade. Pareceu-me que ambas sempre coexistiram, que há muitos de nós dentro de nós mesmos. Num determinado contexto, a partir de determinada escolha, um eu distinto pode emergir ou submergir.

Nem preciso dizer o quanto é meticuloso e impecável, leve, envolvente e instigante o texto de Shriver. Recomendo fortemente até para brincar e refletir sobre o que seria de nossos destinos, caso...

 

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