Por favor, abram as câmeras!

Fabiana Zanella Fachinelli

Esta semana findou as aulas. Era para ter sido um ano como qualquer outro (digamos). Planos de aula preparados, conteúdos avaliados e validados prontos para serem levados aos alunos...

Trabalho com Tecnologia da Informação há 30 anos. Acompanhei a evolução do e-mail datada da década de 90, implantação de sistemas de informação nas pequenas e médias empresas, uso do Personal Computer, da impressora matricial, dos disquetes, evolução do Windows entre outros softwares. Não existiam redes sociais, WhatsApp, Google ou qualquer tipo de plataforma online de ensino-aprendizagem que fosse acessível para todos. Computadores eram artigos de luxo, caros, e a falta de conhecimento técnico fazia com que a maioria ficasse à margem do mundo digital e a informatização ocorreu por muitos anos apenas nas grandes corporações. Precisávamos estudar muito para entender as evoluções e uma simples edição de texto era algo assustador. Trabalhávamos com sistemas operacionais complicados e com interfaces nada amigáveis.

Executar serviços remotos já é uma prática empresarial há anos, mas obviamente exigia prévio conhecimento técnico e não diferente dos dias atuais enfrentávamos problemas com lentidão de internet e quedas de conexão.

Atualmente, como professora de informática para jovens, adultos e idosos posso dizer que as Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) sempre exerceram fascínio sobre as pessoas, especialmente para crianças e jovens.

Kenski citou em seu livro Educação e Tecnologia o seguinte: “Na era da informação, comportamentos, práticas, informações e saberes se alteram com extrema velocidade. Um saber ampliado e mutante caracteriza o estágio do conhecimento na atualidade. Essas alterações refletem-se sobre as tradicionais formas de pensar e fazer educação. Abrir-se para as novas educações, resultantes de mudanças estruturais nas formas de ensinar e aprender possibilitadas pela atualidade tecnológica, é o desafio a ser assumido por toda a sociedade”.

De fato, tivemos que mudar nossos hábitos, desafios surgiram para entender a nova era imposta a todos pela pandemia e a busca urgente pelo conhecimento foi necessária. Gerações que pouco contato tinham com a tecnologia ou apenas utilizavam o necessário para atender as demandas de trabalho, precisaram se adaptar ao ensino e trabalho a distância. As gerações mais recentes quase não encontraram dificuldades, pois já dominavam de alguma forma o mundo virtual, porém o que aparece neste contexto é a desigualdade tecnológica entre os alunos deixando vários à margem da inclusão digital.

Quanto às aulas remotas com jovens, em termos de conhecimento eles são mais hábeis são os conhecidos como nativos digitais, já interagem no mundo virtual com mais facilidade e a adaptação foi mais tranquila, é a geração que nasceu on-line, são as crianças e jovens do século XXI que vivem entre o mundo real e virtual, da aprendizagem colaborativa em rede.

Mas o que fazer quando não estamos devidamente preparados para este novo mundo em que a pandemia da Covid-19 fez com que de alguma forma tivéssemos que nos reinventar?

A construção de uma nova educação, desenhando um novo futuro demanda estudos, preparação e treinamento para então desenvolver um ensino de qualidade que seja prático e organizado. Importante lembrar que as escolas são formadas por pessoas e não robôs, e tudo tem um tempo de aprendizagem e amadurecimento para acontecer. Pode-se ter as melhores práticas e as plataformas mais bem desenvolvidas, mas se não tivermos alunos e professores preparados, com acesso a internet e equipamentos adequados, estes serão excluídos desta nova era da educação 4.0.

Outro ponto é que para conduzir uma aula on-line é preciso reaprender e se reeducar, pois a priori não se pode simplesmente repetir o modelo tradicional e sim exige outros saberes com uma nova linguagem. Não é só o conhecimento técnico que conta em uma aula, é toda a didática e forma de transmitir conhecimento que modifica.

O próprio fundador da Khan Academy baseado na neurociência constatou que as aulas prendem a atenção em no máximo 10 minutos diante de alguém que se põe a falar e neste ponto conduzir para a interação de todos é fundamental.

Saber como o aluno está se sentindo, proporcionar novas experiências, comunicar-se a distância, prender sua atenção, usar a criatividade vai além dos conhecimentos tecnológicos. Junto a isto aparece o desafio das “câmeras abertas”, ou seja, uma aula com câmera desligada é o oposto do que precisa para se obter sucesso em uma aula virtual, já que essas aulas necessitam de motivação contínua. Alunos de uma hora para outra se viram diante de um modelo novo educacional não preparado e nunca foi fácil para ninguém, mas abrir as câmeras foi o pedido mais ouvido durante as aulas.

Obviamente que vários cômodos da casa passaram a ser local de estudo e o mundo particular passou a ser exposto. Tudo aconteceu: gatos passando nas cabeças, cabelos desarrumados, caras de sono, deitados na cama, no sofá, de algum jeito todos tentaram se adaptar, mas nada substitui aquele “olhar virtual” seja ele como for.

A educação contemporânea amadurece rapidamente e as TICs estão modificando o conceito de alfabetização, aprendemos com todos os sentidos e a literacia passa a ser digital, a comunicação é simultânea e as pessoas estão interligadas na Web. Os desafios para uma educação de sucesso on-line passam por mudanças estruturais e muita reciclagem. Além de dominar o conhecimento técnico é necessário que se pratique as tecnologias para assim construir a alfabetização digital. De uma cultura de texto impresso, passamos para uma cultura cibernética.

Mas tem algo que não muda nem em aulas on-line nem em aulas presenciais e que possa servir como aprendizagem: empatia e respeito mútuo. “Alunos, por favor, abram as câmeras, preciso ver vocês!”

 

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Décio Oliveira Elias,
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