Um escritor para se inspirar — Josué Guimarães

Cinthia Dalla Valle

Neste ano de 2021, se comemora o centenário de Josué Guimarães, um dos escritores mais importantes do século XX. Nasceu em 07 de janeiro de 1921 em São Jerônimo, Rio Grande do Sul. Influenciou muitos escritores, inclusive Marcelo Spalding, que sempre cita as obras “É tarde para saber” e “Enquanto a noite não chega”.

Em 1922, sua família mudou-se para Rosário do Sul, fronteira com o Uruguai, onde o pai, um pastor da Igreja Episcopal Brasileira, também trabalhava como telegrafista. Foram viver em Porto Alegre depois da Revolução de 30, onde Josué completou o ensino médio no Ginásio Cruzeiro do Sul. Nessa escola, fundou o Grêmio Literário Humberto de Campos, onde escrevia artigos para o jornal e produzia os textos teatrais que eram encenados na escola todo o final de ano. Depois do colégio, passou em medicina, mas desistiu em seguida.

Em 1939, já no Rio de Janeiro, no Correio da Manhã, Josué deu início à sua carreira de jornalista, profissão que desempenhou até a sua morte. Quando o Brasil entrou na Segunda Guerra, ele voltou para o Rio Grande do Sul, onde terminou o curso de oficial da reserva e foi chamado para servir como aspirante no 7° R.C.I. em Santana do Livramento. Em 1940, aos 19 anos, casou-se com Zilda Marques, com quem teve quatro filhos: Marília, Elaine, Jaime e Sônia.

Em 1944, voltou para a imprensa no Diário de Notícias, escrevendo em uma coluna assinada sob o pseudônimo de D. Xicote. Nessa coluna, o escritor usava da ironia para tratar de fatos políticos do período. Era responsável também pelas ilustrações, desenhos e caricaturas da coluna.

Uma característica marcante de Josué Guimarães foi a sua versatilidade em trabalhar em diversos campos dentro do jornalismo, como repórter, diretor de jornal, secretário de redação, colunista, comentarista, cronista, edi¬to¬rialista, ilustrador, diagramador e repórter político. Em 1948, saiu do Diário de Notícias e passou a ser repórter exclusivo e correspondente da revista O Cruzeiro no Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Uruguai e Argentina. Em 1949, publicou a crônica "Sangue e Pó de Arroz" na revista Quixote nº 4, publicação porto-alegrense que divulgou nomes importantes da literatura do estado.

Outra marca da personalidade e do trabalho de Josué foi seu envolvimento com as questões políticas e sociais do país. Por um período da sua vida, exerceu a carreira pública como chefe de gabinete de João Goulart na Secretaria de Justiça do Rio Grande, no governo Ernesto Dornelles; como vereador em Porto Alegre pelo PTB, sendo eleito vice-presidente da Câmara. De 1961 a 1964, foi diretor da Agência Nacional a convite do então presidente João Goulart. A partir de 1964, foi perseguido pelo regime autoritário e, por isso, passou a escrever sob pseudônimo e a dar consultoria nas áreas comercial e publicitária.

Josué também teve um papel relevante como correspondente. Em 1952, foi correspondente especial no Extremo Oriente (União Soviética e China Continental) e, de 1974 a 1976, foi correspondente da empresa jornalística Caldas Júnior em Portugal e África. Foi o primeiro jornalista brasileiro a entrar na China Continental e na URSS como correspondente especial da Última Hora, do Rio de Janeiro. Neste período, Josué escreveu o livro de viagem “As muralhas de Jericó” (L&PM).

Em 1954, no jornal Folha da Tarde, o escritor lançou uma coluna assinando-a com o pseudônimo D.Camilo. Também foi subsecretário do jornal A Hora no mesmo período, onde deixou sua marca no jornalismo gaúcho junto ao diagramador Xico Stockinger. Em 1956, foi redator da agência de propaganda MPM, sem deixar de se dedicar aos contos e às crônicas no seu tempo livre. Em 1957, foi chamado por Assis Chateaubriand para reestruturar o jornal Diário da Noite no Rio de Janeiro.

Aos 49 anos, Josué Guimarães deu início à sua carreira como escritor com o livro “Os ladrões”, coletânea de contos, sendo que o conto que dá nome ao livro foi premiado no Concurso de Contos do Paraná, considerado na época o mais importante concurso literário do país, consagrando escritores como Rubem Fonseca, Dalton Trevisan, João Antônio, entre outros.

Mesmo tendo iniciado a carreira literária perto dos 50 anos, Josué deixou como legado obras importantes em diversos gêneros, incluindo romances, crônicas, contos, além de histórias infantis e infanto-juvenis.

Em 1969, respondeu em liberdade ao inquérito da ditadura militar e voltou a Porto Alegre. No mesmo ano, foi premiado no II Concurso de Contos do Estado do Paraná pelo conjunto de três contos "João do Rosário", "Mãos sujas de terra" e "O princípio e o fim", que mais tarde fariam parte do livro Os ladrões. Nesse período, casou-se com Nydia Moojem, com quem viveu até sua morte e com quem teve dois filhos, Rodrigo e Adriana.

Josué Guimarães faleceu no dia 23 de março de 1986, com apenas 65 anos, vítima de um câncer intestinal.

Sobre o autor e suas obras

Josué Guimarães é considerado um dos escritores mais influentes e importantes do Rio Grande do Sul e do Brasil. Apesar de não ter concluído a terceira obra da trilogia, “A ferro e fogo I (Tempo de Solidão)” e “A ferro e fogo II (Tempo de Guerra)” são romances clássicos da literatura brasileira, as únicas obras de ficção realmente expressivas sobre a história da colonização alemã no Brasil. Josué voltaria a escrever romance histórico no livro “Camilo Mortágua”, que representou um corte na sociedade gaúcha pós-rural, abrindo caminho para outros escritores trilharem.

Seu livro “Dona Anja” foi traduzido para o espanhol e publicado pela Edivisión Editoriales, México, sob o título de Doña Angela.

Alguns críticos comparam o escritor a Erico Verissimo e a Moacyr Scliar, outros expoentes gaúchos que conquistaram o país. Josué escrevia através de uma linguagem clara e direta, que valorizava o passado e a identidade regionais, além de colocar a coragem que tanto o marcava nas suas obras.

Um exemplo dessa coragem são os dois volumes de A Ferro e Fogo lançados pelo escritor que mudou de editora para tratar de um assunto que muitas editoras temiam trabalhar: a ditadura militar. Além dessa, “É Tarde para Saber” é uma obra que fala de um guerrilheiro urbano que se apaixona por uma jovem rica, filha de pais conservadores.

Josué Guimarães teve seu auge como escritor nos anos 1970, quando publicou suas principais obras e ficou conhecido nacionalmente.

Com o golpe de 1964, Josué foi perseguido devido ao seu envolvimento na política. Precisou usar nomes falsos e vender títulos de Previdência para sobreviver. Na década de 1970, o escritor se autoexilou em Portugal, onde fundou seu próprio jornal, o Chaimite. Era um semanário inspirado pelo Pasquim, tanto é que recebeu na época o reconhecimento dos editores do tabloide brasileiro. Ziraldo também participou com seus desenhos e Jaguar considerou o jornal como sendo um filho brasileiro do Pasquim nascido em Portugal.

Em 2016, um periódico de Lisboa chegou a afirmar que Josué era um agente secreto da KGB, a polícia secreta soviética. Familiares e amigos negaram, mas não deixa de ser uma curiosidade inusitada na história do escritor.

Nos anos oitenta, quando voltou ao Brasil, foi um dos criadores da sucursal da Folha de São Paulo em Porto Alegre, onde trabalharia até sua morte. Nessa época, Josué foi um dos fundadores das Jornadas Literárias de Passo Fundo, uma das maiores movimentações literárias da América Latina. O objetivo era formar leitores através da leitura antecipada das obras dos autores que participavam do evento em Passo Fundo, que depois viria a se tornar a Capital Nacional da Literatura.

Obras publicadas

• As Muralhas de Jericó: Memórias de Viagem: União Soviética e China nos Anos 50 (1952)
• Os ladrões (Contos — 1970)
• A Ferro e Fogo I — Tempo de Solidão (Romance — 1972)
• Depois do Último Trem (Novela — 1973)
• A Ferro e Fogo II — Tempo de Guerra (Romance — 1973)
• Lisboa urgente (Crônicas — 1975)
• É Tarde para Saber (Romance — 1977)
• Pega pra Kapput! (Novela com Moacyr Scliar, Luis Fernando Verissimo e Edgar Vasques — 1978)
• Tambores Silenciosos (Romance — 1976 e 1991)
• Dona Anja (Romance — 1978)
• Enquanto a noite não chega (Romance — 1978)
• O cavalo cego (Contos — 1979 e 1995)
• A casa das quatro luas (Infantil — 1979)
• Camilo Mortágua (Romance — 1980)
• Era uma vez um reino encantado (Infantil — 1980)
• A onça que perdeu as pintas (Infantil — 1981)
• Xerloque da Silva em “O rapto da Dorotéia” (Infantil — 1982)
• O gato no escuro (Contos — 1982)
• Xerloque da Silva em “Os Ladrões da Meia-Noite” (Infantil — 1983)
• Meu primeiro dragão (Infantil — 1983)
• Um corpo estranho entre nós dois (Peça teatral em três atos — 1983)
• História do agricultor que fazia milagres (Infantil — 1984)
• O avião que não sabia voar (Infantil — 1984)
• É tarde para saber (1986)
• Amor de perdição (Romance — 1986)
• A última bruxa (Infantil — 1987)

 

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